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sábado, 27 de abril de 2013

O Litoral Brasileiro e a Muralha da China


Esta semana estava caminhando e passei na frente de um rádio sintonizado, em alto volume, na “Voz do Brasil”. Só pude ouvir um trecho em que alguém discursava e falava do gigantismo do Brasil e, provavelmente, de alguma dificuldade que isso acarretava. Como exemplo, ele disse alguma coisa assim: “um país que tem um litoral tão grande quanto a Muralha da China...”.
Aquela frase ecoou na minha cabeça. Por maior que seja o litoral do Brasil ele levou milhões de anos para tomar a forma atual. Por outro lado a Grande Muralha foi feita por mãos humanas e isso me pareceu muito mais impressionante.
Fui pesquisar na Wikipedia e cheguei a alguns números:
   a) Litoral Brasileiro – 7.400 km de extensão (se contarmos as reentrâncias, como baías e falésias, chega-se a 9.200 km). Já percorri de carro cerca de 4.400 km de litoral, não posso dizer que entrei em todas as praias desses trechos, mas pelo menos passei perto. Isso dá cerca de 60% do total. É muito chão, conheci lugares incríveis e sei que tem muito mais para ver.
    b) Muralha da China – 7.000 km atuais (8.850 km considerando-se os trechos já destruídos). Levou cerca de 1.600 anos para ser construída. Especialistas estimam que foram usados cerca de um milhão de trabalhadores na construção, sendo que 80% deles devem ter morrido de fome, de frio, de doenças e de acidentes durante a obra. Nunca estive nem perto da China, mas não posso deixar de admirar a obra e respeitar àqueles que trabalharam nela.

CRÉDITOS:

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A pior seca dos últimos 60 anos

Uma avaliação comparativa dos efeitos da seca no Nordeste.

Na semana passada estava assistindo o Jornal Nacional, coisa que faço raramente, portanto não acompanho muitas “séries de reportagens”. Pois bem, naquela ocasião vi uma reportagem sobre a atual seca do Nordeste. Naquele momento fiquei tocado, afinal nas raras vezes que fiquei sem água em casa já achei o caos.
Depois comecei a pensar melhor sobre o assunto e me lembrar de outra seca marcante na minha memória. A do início dos anos 80. Naquela época, houve uma reportagem memorável no Fantástico (de 1983) em que o repórter João Batista Olivi, chora ao entrevistar um menino que encontrava força e esperança para brincar mesmo numa situação como aquelas. Lembro também das campanhas para arrecadar fundos para os flagelados da seca. Procurei no Youtube o vídeo da reportagem, e nele também aparecem as tão famosas “frentes de trabalho” (uma maneira dos governos darem emprego àqueles que tinham perdido tudo).
Seca de 1983

Comparando as duas reportagens, com exatos 30 anos de diferença, uma coisa ficou clara: a situação do povo melhorou muito. Não, não pensem que enlouqueci ou que estou fazendo alguma apologia política para o partido A ou B. Se têm dúvida, vejas as reportagens. Em 1983 as crianças choravam de fome, as mães choravam por não terem o que dar de comida para os filhos, não havia água nem para beber, muita gente morreu de desnutrição, o gado morria de fome... Pois bem, apesar da seca de 2013 ser a “pior dos últimos 60 anos”, isso dito pelo Secretário de Recursos Hídricos de Pernambuco, Almir Cirilo, a grande reclamação hoje é a perda do rebanho de gado. Nas palavras do agricultor Magno Moura, segurando o choro: “Ninguém pode analisar a dor de um nordestino que perde seus animais. É duro demais. Só quem está aqui, no dia a dia, vendo eles morrendo aos poucos, sabe". Na mesma reportagem aparece a dona de casa, Maria Jo, cuja maior reclamação era a pouca água disponível, e comentava a falta que ela sentia de um banho de chuveiro.
Pior Seca dos Últimos 60 anos

Pior Seca dos Últimos 60 anos

Pior Seca dos Últimos 60 anos

A diferença é gritante, a fome já não mata as pessoas, somente o gado. A água, de uma forma ou de outra vai até elas e a migração já não é tão grande quanto em outras épocas.
Para quem ainda ficou em dúvida, aconselho a lerem o livro “Holocautos Coloniais”. Li este livro há uns 8 anos e foi como um soco no estomago. Nele o autor analisa períodos de seca entre 1875 e 1900 em três localidades: China, Índia e Nordeste Brasileiro. Ele demonstra que os períodos de seca são cíclicos e globais, fortemente influenciados pelo fenômeno “El Niño”. Ou seja, quando houve grandes secas no Nordeste, também houve em outros locais do mundo. O livro demonstra claramente a ocorrência das secas e a correlação estatística entre vários fenômenos. Além disso, mostra a terrível realidade da morte por fome de mais de 30 milhões de pessoas, num período de 25 anos nesses três locais. No Brasil ele estima entre 1 e 2 milhões de mortos. Numa citação ele diz que “durante 1877 e 1878, a mortandade no Ceará foi provavelmente perto de 500 mil, ou mais da metade da população”. A conclusão do autor é de que todas essas mortes poderiam ter sido evitadas se o imperialismo comercial daquela época não tivesse sido tão intenso.
Ainda bem que as coisas estão bem melhores.

FONTES:
- Holocaustos Coloniais – Mike Davis – Ed. Record – 486 p.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Sexo é esporte?

Se sexo é esporte, então é o único esporte em que os atletas são também juízes e comentaristas.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Estou vivo graças à medicina moderna.

  Vou começar dizendo que não sou contra os tratamentos ditos "alternativos". Terapias com ervas, homeopatia, quiropraxia, etc. se mostram eficientes em várias situações. Mas, principalmente, são tratamentos menos agressivos. Quando não se sabe exatamente qual a causa da doença (ou mesmo que doença é) o abuso de medicamentos pode ser pior do que o problema original. Também, quando não há mais esperanças nos tratamentos convencionais, toda a alternativa é válida para tentar a cura ou, pelo menos, aliviar a dor.
  Por outro lado, há muitos anos fiquei de "fiel depositário" dos livros de um amigo que havia se mudado para o exterior. Um dia resolvi ler um deles: "A Assustadora História da Medicina" (de Richard Gordon, com edição brasileira da Ediouro, ainda à venda com uma capa diferente da que eu li). No livro, um bem humorado relato da história médica, são descritos três procedimentos mudaram radicalmente a medicina ocidental. A assepsia (que diminuiu enormemente as infecções e contaminações durante os tratamentos), o uso de anestésicos (que permitiu procedimentos cirúrgicos invasivos) e a descoberta dos antibióticos (que apesar de todos os efeitos colaterais, permitiu que as doenças bacterianas, finalmente tivessem um combate eficaz).
  O uso desses procedimentos, tão corriqueiros hoje para nós, foi o principal fator para o grande salto na longevidade conseguido do século XIX ao XXI. Eu, como disse, só estou vivo graças a isso. Com 10 anos tive apendicite aguda, se fosse no século XVIII, teria morrido de peritonite, com certeza. Já com 45, tive uma crise de cálculo renal e a pequena pedra ficou presa no ureter, o meu rim começou a inflamar e a inchar. Se fosse no passado, só teria sobrevivido com muita sorte.

A influência dos meus tios

   
Minha avó completou 80 anos e na festa de aniversário, depois de mais de uma década, reuniu os 5 filhos. Minha mãe é a mais velha da “ninhada”, casou-se cedo e logo ganhou filhos, como era comum na época. A diferença de idade entre a minha mãe e a minha tia mais velha é de 8 anos, e do irmão mais novo de 13 anos. A consequência disso tudo é que eu tive os meus tios adolescentes durante a minha infância toda. E isso foi fundamental na minha vida! 
   Os meus pais eram extremamente convencionais. Não eram retrógrados, mas tinham as típicas aspirações da classe média brasileira. Isso tudo em plena era do “Flower Power”. Meus tios eram o oposto dos meus pais, queriam viver na paz e no amor (e, de preferência, sem se comprometerem muito). Não gostavam da escola, fumavam muita maconha escondidos (evidentemente) e curtiam muito rock. Naquele tempo a televisão estava começando a aparecer no interior e em toda a minha infância só pegava 1 canal na minha cidade. Rádio só tinha uma e era mais usada como serviço de recados para o pessoal do interior do município. O vídeo-clip também não tinha sido criado no formato atual. 
   Todos os meus tios de cabelos compridos e lisos, calças jeans desbotadas e com boca de sino arrastando pelo chão (desafiador na época), sapatos plataforma. Nenhum deles prestou o serviço militar, por problemas de saúde, para a sorte do exército. Minha tia com os seus vestidos floridos, foi assim até no casamento. Uns amigos deles casaram-se na igreja matriz totalmente vestidos de jeans, um escândalo.
   Não eram, nem de longe, intelectuais e nem engajados politicamente como muitos jovens da época. Mas não estavam desligados do mundo. Sabiam das transformações sociais que aconteciam como uma enxurrada por toda a parte e procuravam se encaixar nessas mudanças todas. Com 11 anos mudei de cidade e perdi o contato frequente com eles.
   Mais tarde os meus pais confessaram que uma das razões para a mudança de cidade foi tentar me afastar da “má influência” dos tios. Na minha memória, eles acabaram sendo, representantes de uma geração perdida, que não estudou (os únicos dois que terminaram o secundário o fizeram já adultos). E que hoje sobrevive de pequenos empregos. E, apesar disso, reclama pouco da condição financeira. Por outro lado, eu sempre me sinto muito à vontade na presença deles, conversando com eles e lembrando das histórias.
   Hoje, cada um mora num canto. Tenho primos pelo mundo afora. Ficou uma fortíssima influência musical, o rock (Led Zeppelin, Pink Floyd, Jethro Tull, Yes, Genesis, Rick Wakeman entre muitos outros). Foram eles que me apresentaram o festival de Woodstock, Bob Marley, Rolling Stones, Janis Joplin e Jimi Hendrix. E foi com um deles, que anos mais tarde eu assisti, no velho cinema das matinês que já estava decadente antes de fechar definitivamente, a versão tardia para o musical Hair. Um perfeito contraponto para os boleros e tangos do meu pai e das operetas e músicas românticas italianas da minha mãe.
   Obrigado, tios!